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Oriana Fallaci e Arturo Pérez-Reverte. Grandes jornalistas, pessoas mesquinhas (pro meu gosto). Provas de que com algo de objetividade e talento até os mesquinhos fazem bom jornalismo. O leitor só precisa ter um pouco de boa-vontade e perseverança pra passar por cima das opiniões e tirar proveito dos fatos. Que fatos há.
Entrevistas com a História (Oriana Fallaci)
Território Comanche (A. Pérez-Reverte)
posted by Paulo 2:16 AMcomentários:
Os camelos do afeto no deserto da Solidäo
Alguém mais está sentindo esse frio? Gela de dentro pra fora, como se os ossos fossem de cobre ou de algum outro condutor. "Piora de noite", murmurou o grumete Gladis, atiçando o fogo com a vareta que näo largava desde Bagdad. "Tomou suas pastilhas hoje?", perguntou com tom paternal, de um pai ausente. Tenho tomado só meia, tenho medo que a caixa termine antes da gente chegar. "Vai ter pesadelos com a sua mäe", masculhou Gladis, "meia näo é suficiente". Melhor com a mäe do que sonhar com a Margarida. "Se acaba a lenha", era o sub-oficial Pipo, da intendência: "só tem a última cadeira, depois vamos ter que queimar a mesa". Matávamos a fome com os cestos de päo que os outros clientes deixavam inacabados. Da cozinha continuava vindo o cheiro de ovo com alho. Resolvemos mandar Otis, o singalês, para arranjar alguma carne. A vantagem é que lhe haviam arrancado a língua em Sri Lanka depois da revolta estudante. Era o único entre nós que näo dizia besteiras. O grumete Gladis atiçava as brasas com os olhos fixos, como se o fogo fosse apagar se desviasse a vista. "Me deixa a garrafa, Gordo", me pediu o grumete, e sorveu um trago. Otis voltou com a carne pelas mäos, nos apresentou com um gesto e Pipo resolveu talhar as pernas da mesa para assá-la melhor. Näo reclamou. Otis e Gladis dividiram as coxas entre si, os outros se serviram. "Näo come, Gordo?", me perguntou Gladis atiçando o fogo. Disse-lhe "Depois", com algo de nojo.
posted by Paulo 6:19 PMcomentários:
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Batucada de samba animou protesto em Barcelona
Dezenas de milhares de pessoas participaram neste sábado em Barcelona de uma manifestação contra a guerra na Faixa de Gaza. Ao final do protesto, a organização falava em 100 mil participantes, embora admitisse não ter como medir exatamente o tamanho da multidão. Os números oficiais da Guarda Urbana (Polícia Municipal) falam em 30 mil. O ato foi convocado pela plataforma “Paremos a Guerra”, que reúne dezenas de entidades e partidos políticos.
As entidades pedem às lideranças da Espanha e da União Européia que boicotem Israel e os produtos israelenses enquanto durem as hostilidades na Palestina. E principalmente que pare o comércio de armas entre Espanha e o país judeu.
Na trilha sonora da manifestação, músicas tristes em árabe e catalão - alguma coisa em espanhol – davam um clima melancólico à praça, semeada de cartazes com fotos de crianças mortas, gritos de “assassinos” e expressões de revolta. Até que um grupo de umas quinze pessoas começou uma batucada de samba, que abafou todas as outras músicas, e chegou a parecer que era uma imensa escola de samba esperando para entrar na avenida.
A quantidade de gente reunida na “Praça Universitat”, ponto de partida no centro da cidade, impressionou Collete Zointeau, 67, francesa que vive há 40 anos na Espanha. Ela veio a Barcelona com o marido especialmente para o evento. “Não imaginava que viriam tantos. Estamos fartos de ver tanta gente morta pela TV, acho que demorou muito para se fazer algo a respeito”, comentou.
Havia gente de todas as idades, inclusive muitas crianças trazidas pelos pais. Inúmeras nacionalidades estavam representadas. Grande parte dos manifestantes era de imigrantes de países muçulmanos. Principalmente de Marrocos e do Paquistão. São duas das maiores colônias estrangeiras em Barcelona. “Espero que dessa vez sirva para algo. Porque já houve várias [passeatas] e até agora não adiantou muito”, reclama Omar Ben Tassad, um marroquino de 20 anos que seguia a multidão com mais dois amigos que entendiam pouco o espanhol.
Dezenas de bandeiras diferentes se destacavam sobre a multidão. A da Palestina era a que mais se via. Mas havia também bandeiras do Iraque, Paquistão, Venezuela e Catalunha e de vários partidos, sobretudo de esquerda. Havia cartazes pela paz, pró-Palestina e anti-Israel. Dos caminhões de som e dos megafones espalhados por todo o trajeto saíam lemas como: “Palestina, livre, livre / Israel, fora, fora [em árabe]”, “Vocês sionistas / São os terroristas!”, “Olmert e Bush assassinos / Onde está Obama que até agora não lhe ouvimos?”.
A posse de Barack Obama, que se realizará em alguns dias, provocava expectativa em alguns e ceticismo em outros. “Não vai acontecer nada de importante [no conflito palestino] enquanto Obama não assuma”, opinava Dolores Fernández, “Zapatero [presidente espanhol] tem muito blá, blá, blá, mas atua pouco”, dizia. Um homem ao seu lado replicava: “Não vai mudar nada [com Obama]. Negro ou branco, eles são todos iguais”.
Entre os cartazes que mais se destacavam na aglomeração estava uma grande cópia do quadro “Guernica”, de Picasso. Media três metros de altura e sete de largura. A reprodução foi pintada em 2004, por várias pessoas, para ser usada em uma manifestação contra a Guerra do Iraque. Desde estão, o cartaz-quadro já apareceu em diversos protestos. “Não fazer nada [contra a guerra] me parece um pouco imoral. Se o protesto não funcionar para convencer os que mandam, pelo menos serve para que as vítimas saibam que nos importamos por elas”, comenta Marta Chine, uma jovem catalana que empunhava uma das pontas do cartaz.
A passeata, que acabou na Praça Sant Jaume (sede da Prefeitura de Barcelona) com ato durante o qual foi lido um manifesto, durou oficialmente das 17h às 19h. Mas duas horas depois do início, ainda havia gente saindo do ponto inicial. Segundo José Luís Gordillo, membro da organização e da Plataforma “Paremos a Guerra”, ainda não está prevista uma nova manifestação. O grupo vai se reunir para planejar os próximos passos.
posted by Paulo 2:36 PMcomentários:
Quase três anos fora do Brasil e até hoje sigo sem nunca ter visto neve. E näo precisaria ir muito longe, a vinte minutos daqui há montanhas onde neva. Um pouco além, existe até estaçäo de esqui. Falta de vergonha na cara ou pura preguiça, misturada com um pouco de päo-durismo. O caso é que ontem nevou em Barcelona, coisa bastante rara, principalmente nas partes baixas. Nevou na praia, o que por si só já é algo esquisito. Mas näo nevou onde eu estava, apesar do frio e da chuva. Quem sabe com um pouco mais de paciência e mentalizaçäo a neve venha até mim.
posted by Paulo 8:43 PMcomentários:
En alguna parte de la acera el tiempo se disipó, ya te lo he comentado. Desde entonces sigo acostado, escuchando a menudo un "clic" del gatillo de un despertador que nunca suena. Lo que es sencillamente imposible, pues despojé mi cuarto de todos los relojes. Y como los días se han acortado, apenas me puedo fiar de los agujeros en la ventana. Las seis horas son igual de oscuras por la mañana que por la tarde. Si uno no se fija en el flujo de los coches, puede confundirlas y con la impresión de que la ciudad se cayó en un largo apagón de domingo. Se me ocurre que a lo mejor me hundí en tu soledad desquiciada, pero me reivindico el desquicio. Lo más extraordinario es que sigo, ya lo ves, inmerso en aquello con que te perseguía. Con el conforto de que ahora puedo decírtelo sin que te pueda halagar.
posted by Paulo 6:13 PMcomentários: