posted by Paulo 4:50 PMcomentários:
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A bóia amarela
Não cheguei ao pânico, mas seria o grau seguinte. Só durante uns segundos me passou pela cabeça que eu poderia não conseguir voltar. Sabia que na falta dos braços, as pernas seriam suficientes pra nadar à margem, ainda que demorasse muito. E em último caso, havia os barcos por perto.
Comprar um Johnny Walker no mercado custa o mesmo que uma pequena dose de whisky em qualquer bar ou boate. Não que eu vá à praia com a garrafa na mochila. Usei como cantil uma garrafa de plástico de 300 ml - que o sol e a areia esquentarão durante o dia até o whisky ficar intragável. Mas o Mediterrâneo tem essa vantagem, a água é sempre gelada. Basta passear o cantil durante um par de minutos dentro do mar e a temperatura cai. Bebida fresca, quase fria. Assim dura o whisky, serve para o dia inteiro; aos poucos, pra não embebedar de vez.
Levo também a toalha velha, um sanduíche de salame embrulhado em papel alumínio e algum dinheiro. Pra passar um dia de dândi, numa praia alejada dos turistas. Pro sol, uma caixa de aspirinas.
O trem sai pontualmente às 11h36 da estação Catalunha, forno subterrâneo, cuja agonia só dá um refresco a cada cinco minutos, com o vento de outros comboios que passam apitando. Por isso o prazer de tomar o trem é duplo, pelo início da viagem e pelo ar-condicionado. O trajeto dura 45 minutos, suficiente pra abrir o livro, tentar ler duas páginas e fechá-lo em seguida, em troca da paisagem que surge quando saímos de dentro da terra.
O vagão por sorte não vai cheio, ajuda ser terça-feira. Eu e minha companheira de viagem temos quatro bancos pra dividir entre os dois. Conforto de esticar as pernas; ela na fileira oposta, os pés descalços no banco ao meu lado. Assim são os casais dandi. Poucas ou nenhuma palavra trocada, intimidade justa e contente. Sem discussões, sem expectativas.
Desço na minha parada duvidando se me despeço ou não da garota que viajou na minha frente. Mas saio mesmo sem trocar palavra.
Em quinze minutos de praia já tomei dois ou três grandes tragos de whisky e a primeira aspirina. Beber enquanto está fresco – a artimanha de esfriar a garrafa no mar só me ocorreu mais tarde. O sol castiga os dandis sem guarda-sol, o mar é meu melhor amigo. Protege do sol e gela o whisky. Na terceira ou quarta vez que entro na água reparo na bóia amarela ancorada no fundo. Já fazia mais ou menos meia garrafa que eu estava na praia, mas dessa vez a cor destacada da bóia, dourada contra o azul, me chamou mais a atenção. E pareceu estar muito perto. A bóia era amarela justo para que eu nadasse até ela.
É verdade que no mar o senso de distância é completamente distinto. Demorei muito mais do que imaginava pra nadar até lá, três ou quatro investidas de alguns minutos. Cheguei a pensar em desistir antes da penúltima, mas sempre parecia estar perto demais pra abandonar. A derradeira série de braçadas me inutilizou os braços, gastei toda a energia pra chegar à bóia amarela, como se não tivesse que voltar. Bati o pique - o momento mais ridículo - e quando me girei, pra ver a praia de longe, senti o primeiro desconforto. Eu havia realmente entrado no mar, o céu estava largo, as pessoas estavam pequenas, mas parecia que suas vozes fracas chegavam até mim, de todos os pontos do arco da praia, de um extremo ao outro. Senti necessidade de voltar depressa, mesmo precisando descansar.
A viagem de volta durou o triplo de tempo. O que me empurrou realmente foi a sensação de que nadava, nadava (com as pernas) e não saía do lugar. Quando enfim desembarquei, ninguém havia sentido a minha falta. Ainda não havia comido o sanduíche, mas o whisky quente e o esforço me estragaram o estômago e a cabeça. Entrei de novo no mar e vomitei algo escuro, sem consistência sólida. De costas para a praia pra que ninguém visse. Purificado, em meia hora já estava melhor. Tomei um sorvete pra equilibrar e agüentar até o fim do dia.
posted by Paulo 9:25 PMcomentários: