Barcelona by Dummy

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Sexta-feira, Agosto 15, 2008

 

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Quarta-feira, Agosto 06, 2008

 

A bóia amarela
Não cheguei ao pânico, mas seria o grau seguinte. Só durante uns segundos me passou pela cabeça que eu poderia não conseguir voltar. Sabia que na falta dos braços, as pernas seriam suficientes pra nadar à margem, ainda que demorasse muito. E em último caso, havia os barcos por perto.

Comprar um Johnny Walker no mercado custa o mesmo que uma pequena dose de whisky em qualquer bar ou boate. Não que eu vá à praia com a garrafa na mochila. Usei como cantil uma garrafa de plástico de 300 ml - que o sol e a areia esquentarão durante o dia até o whisky ficar intragável. Mas o Mediterrâneo tem essa vantagem, a água é sempre gelada. Basta passear o cantil durante um par de minutos dentro do mar e a temperatura cai. Bebida fresca, quase fria. Assim dura o whisky, serve para o dia inteiro; aos poucos, pra não embebedar de vez.

Levo também a toalha velha, um sanduíche de salame embrulhado em papel alumínio e algum dinheiro. Pra passar um dia de dândi, numa praia alejada dos turistas. Pro sol, uma caixa de aspirinas.

O trem sai pontualmente às 11h36 da estação Catalunha, forno subterrâneo, cuja agonia só dá um refresco a cada cinco minutos, com o vento de outros comboios que passam apitando. Por isso o prazer de tomar o trem é duplo, pelo início da viagem e pelo ar-condicionado. O trajeto dura 45 minutos, suficiente pra abrir o livro, tentar ler duas páginas e fechá-lo em seguida, em troca da paisagem que surge quando saímos de dentro da terra.

O vagão por sorte não vai cheio, ajuda ser terça-feira. Eu e minha companheira de viagem temos quatro bancos pra dividir entre os dois. Conforto de esticar as pernas; ela na fileira oposta, os pés descalços no banco ao meu lado. Assim são os casais dandi. Poucas ou nenhuma palavra trocada, intimidade justa e contente. Sem discussões, sem expectativas.

Desço na minha parada duvidando se me despeço ou não da garota que viajou na minha frente. Mas saio mesmo sem trocar palavra.

Em quinze minutos de praia já tomei dois ou três grandes tragos de whisky e a primeira aspirina. Beber enquanto está fresco – a artimanha de esfriar a garrafa no mar só me ocorreu mais tarde. O sol castiga os dandis sem guarda-sol, o mar é meu melhor amigo. Protege do sol e gela o whisky. Na terceira ou quarta vez que entro na água reparo na bóia amarela ancorada no fundo. Já fazia mais ou menos meia garrafa que eu estava na praia, mas dessa vez a cor destacada da bóia, dourada contra o azul, me chamou mais a atenção. E pareceu estar muito perto. A bóia era amarela justo para que eu nadasse até ela.

É verdade que no mar o senso de distância é completamente distinto. Demorei muito mais do que imaginava pra nadar até lá, três ou quatro investidas de alguns minutos. Cheguei a pensar em desistir antes da penúltima, mas sempre parecia estar perto demais pra abandonar. A derradeira série de braçadas me inutilizou os braços, gastei toda a energia pra chegar à bóia amarela, como se não tivesse que voltar. Bati o pique - o momento mais ridículo - e quando me girei, pra ver a praia de longe, senti o primeiro desconforto. Eu havia realmente entrado no mar, o céu estava largo, as pessoas estavam pequenas, mas parecia que suas vozes fracas chegavam até mim, de todos os pontos do arco da praia, de um extremo ao outro. Senti necessidade de voltar depressa, mesmo precisando descansar.

A viagem de volta durou o triplo de tempo. O que me empurrou realmente foi a sensação de que nadava, nadava (com as pernas) e não saía do lugar. Quando enfim desembarquei, ninguém havia sentido a minha falta. Ainda não havia comido o sanduíche, mas o whisky quente e o esforço me estragaram o estômago e a cabeça. Entrei de novo no mar e vomitei algo escuro, sem consistência sólida. De costas para a praia pra que ninguém visse. Purificado, em meia hora já estava melhor. Tomei um sorvete pra equilibrar e agüentar até o fim do dia.
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Segunda-feira, Julho 21, 2008

 

O cara
Quem é esse cara?
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Sábado, Julho 12, 2008

 

Da boca de Franco
O prefeito de uma cidade na Galícia (regiäo no norte da Espanha) inaugurou recentemente essa fonte grotesca, que representa a cabeça de Franco cuspindo água. Vendo a escultura, a gente pode ficar em dúvida se é homenagem ou uma sacanagem com o ditador. Provavelmente é a primeira opçäo, já que senso de humor näo é o forte da Península. Näo sei de onde a gente herdou o nosso. Franco era galego - assim como a família de Fidel Castro. Ter gente inaugurando cabeças de Franco a essas alturas - coisa impensável na maioria dos países que superaram ditaduras - mostra a dualidade que ainda existe na Espanha sobre o período autoritário. Apesar de oficiosamente proscrito das glórias nacionais, Franco e o franquismo contam com a simpatia de uma parte nada desprezível do país. Os Socialistas do PSOE, atualmente no governo, tentam borrar as marcas e derrubar os monumentos da ditadura. Mas sempre encontram a resistência mais ou menos explícita da direita, cujo maior representante político é o Partido Popular.
posted by Paulo 1:33 PM
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Domingo, Junho 22, 2008

 
The Paris Review
O que o senhor quer dizer com "demasiado literário"? O que o senhor corta, certos tipos de palavras?
George Simenon - Adjetivos, advérbios. Toda palavra cujo propósito ali é só provocar um efeito. Toda frase que está ali só pela frase. Aquela coisa, se você tem uma bela frase: corte fora. Toda vez que topo com esse tipo de coisa nas minhas novelas, é pra cortá-las
posted by Paulo 1:41 PM
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Quinta-feira, Junho 12, 2008

 

Qué pasa
Hoje várias seçöes do supermercado estavam de pratileiras vazias, ocas. Näo havia laticínios, carne, päo e água, por exemplo. Parecia coisa de filme, cenário de fome. E näo é um problema só do nosso bairro. A Espanha inteira vive uma pequena crise de abastecimento. Os sindicatos de transportistas, os caminhoneiros, pararam o país e bloquearam as principais estradas já faz alguns dias. Protestam contra o altíssimo preço dos combustíveis, exigindo alguma medida do governo. Como se o governo fosse responsável pela atual escalada internacional do petróleo. Assim, grande parte dos produtos simplesmente näo chega. E mesmo a superior civilizaçäo ocidental mostra como volta a ser selvagem sob o menor sinal de risco ao seu bem-estar. Pessoas compram água e papel higíênico como se vivêssemos às vésperas da Guerra Atômica. Uma senhora de uma cidade vizinha comprou 90 litros de leite. Outra, 120 rolos de papel higiênico. Fábricas pararam por falta de peças e, como sempre nesses casos, ameaçam despedir pessoal.

-o-

Falando nisso, a Uniäo Européia aprovou a proposta da semana de 65 horas. Parece piada, mas é verdade. Se houver "acordo entre paträo e empregado", um funcionário poderá trabalhar até 65 horas por semana, em contraste com o limite atual de 48h. Näo faz muito tempo, a França diminuiu para 35 horas - e agora querem andar pra trás. Näo entendi direito, e nem os jornais explicam, qual é o efeito prático da medida em cada categoria. Mas 65h semanais säo mais de 10 horas por dia, consierando apenas um dia de descanso.

-o-

E chove, chove.
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Sábado, Junho 07, 2008

 

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Quarta-feira, Maio 21, 2008

 

Nero de fogo em Barcelona
Eu fui à praia, hoje. Näo tava aquele sol, mas o céu limpo esquenta o suficiente. Conheci o Miguel, a primeira pessoa no mundo que eu vi até hoje comprar fiado de ambulante. A cada um minuto passava um paquistanês cobrando a conta da semana passada. Näo é preconceito, todos os ambulantes das praias de Barcelona säo do Paquistäo. "Cerbessa, bíer, cola, água, fanta!" Eles säo conhecidos como "Cerbeçabíer". Mas imagino que ganham mais do que eu. Enfim, o Miguel diz que é ator, faz o papel de Nero na rua. Bem fornido de pança, fazia uma figura picaresca. Tirou até a coroa de louros da bolsa de praia (louros de plástico) pra mostrar. Como ele estava pelado da cintura pra baixo ficou mais parecido com Baco do que com Nero. "Você é gay?", me perguntou. "Näo". "É bissexual?". Eu: "Näo, näo sou". Ele continuou: "Aqui na praia vêm muitos gays". "É, eu sei", respondi. "E é uma praia de nudismo". Meia verdade, porque naquele instante ele era o único semi-pelado. "Como você näo é gay", ele me disse, "vou te arranjar umas garotas". Pressenti o mico. Chamou duas meninas e puxou conversa. Elas se aproximaram. "Viu como é fácil pra um gay paquerar garotas?", me disse. Eu tava achando divertido. Elas conversaram um pouco, pareciam gêmeas, e logo disseram que tinham que ir embora. "Mas vocês näo väo embora sem que antes eu declame o Monógolo do Polvo Gay". Momento surreal. Um baco de camiseta branca, com as partes baixas à mostra e uma coroa de louros declamava na praia o "monólogo do polvo gay". Algo sobre os vários braços que ele tinha. Elas foram embora em seguida, depois de elogiar o monólogo (suponho que era de autoria própria), eu também um pouco depois. E ele ficou discutindo com os ambulantes, pra que lhe vendessem mais uma cerveja. Pagava sem falta na terça.
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Quarta-feira, Maio 14, 2008

 
Segundo
Dois anos inteiros, já passei da idade de começar a falar. Aprendi alguma coisa. Um pouco de cataläo, a fazer arroz e que tudo custa dinheiro. Mesmo que näo pareça. Se näo paga, é que tem alguém pagando por você. Descobri prazeres insuspeitos, como o de comprar azeite de oliva com meu salário. Ou o de acordar sem dor de cabeça. Acabou o segundo inverno, e só depois de um inverno de verdade os teus ossos sabem o que é calor. Em Barcelona as pessoas sofrem de um resfriado perpétuo. Os vírus adoram este pedaço do mundo. Calle Camélies, 66, 2o piso. É minha única referência identitária fixa. O resto muda conforme meu espírito de porco ou a boa vontade dos outros. Cada vez pareço mais com o Evo Morales. Da primeira vez que vi no espelho, näo reconheci o rosto. Mas pensando bem, isso era meio óbvio, bobo fui eu de näo ter notado antes a semelhança. E estou me tornando invisível, uma habilidade útilíssima num mundo globalizado. É uma magia fácil, que leva tempo e alguma insignificäncia pra adquirir. O segredo é o seguinte: mais importante que näo ser notado é näo reparar em ninguém. Daí depois de seis meses fazendo o mesmo percurso de ida e volta, no mesmo horário, você desaparece num "plec"! É uma ótima cidade - näo chora - é só que eu näo tenho tido muito tempo pra ela.
posted by Paulo 1:45 AM
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Quinta-feira, Maio 01, 2008

 
Muere a los 102 años el descubridor del LSD
Albert Hofmann, el químico suizo que descubrió la droga alucinógena LSD, ha muerto a los 102 años, ha dicho la organización que republicó su libro sobre la sustancia. Hofmann, que defendía las propiedades medicinales de la droga a que él denominó su “niño problema”, murió victima de un ataque al corazón en su casa en Basilea, Suiza, el martes.

Nacido el 11 de enero de 1906, Hofman descubrió el LSD – ácido lisérgico diethylamida, que después se tornaría la droga favorita de la contracultura de los años 60 – cuando una pequeña cantidad fue derramada en su mano durante una experiencia de laboratorio en 1943. Entonces él notó una “notable relajación, combinada a una ligera confusión mental”, que le hizo parar el trabajo. “En casa me tumbé y me hundí en una agradable sensación de intoxicación, caracterizada por una imaginación extremamente estimulada”, dijo Hofmann sobre la experiencia.

“En un estado de ensoñación, con los ojos cerrados (encontraba la luz del sol demasiado desagradable), noté una nube ininterrumpida de figuras fantásticas, formas extraordinarias con un intenso juego caleidoscópico de colores,” escribió Hofmann en su libro “LSD – mi niño problema”. “Tras cerca de dos horas esa sensación se desvaneció”

"BAD TRIP"

Pocos días después Hofmann tomó deliberadamente una dosis de LSD y experimentó el primer “mal viaje” del mundo – jerga para cuando los usuarios sufren una mala reacción. “En el camino a casa, mi condición empezó a tomar formas asustadoras. Todo en mi campo visual flotaba y se distorsionaba como si yo mirara en un espejo curvo”, declaró. Una vez en casa, el LSD siguió turbando la mente de Hofmann: “Las cosas a mi alrededor ahora se transformaban de una manera aún más terrible”. “Un demonio me había invadido, tomado posesión de mi cuerpo, mente y alma. Yo salté y grité, intentando liberarme de él, pero me hundí nuevamente y me tumbé indefenso en el sofá. La sustancia, con la cual había querido experimentar, me había derrotado”.

El ex conferencista de Harvard Timothy Leary popularizó el LSD con su consejo en 1960 de “encenderse, sintonizarse y saltar fuera”, pero Hofmann creía que la sustancia había sido secuestrada y sufrido abusos por parte del movimiento hippie, y siguió diciendo que la produjo como un fármaco. Pero Hofmann creía que el LSD todavía podría tener un valor para la medicina, como fue útil Aldous Huxley, autor de “Un Mundo Feliz”, quien utilizó la droga para reducir su sufrimiento en sus últimos días. Hofmann – quien creía que el LSD era útil para analizarse cómo funciona la mente, con la esperanza de que se la pudiera utilizar para reconocer y tratar enfermedades como la esquizofrenia – defendió su “droga maravillosa” a lo largo de décadas, tras su prohibición en los años 60.

El presidente de MAPS, Rick Doblin, ha dicho que habló con Hofmann recientemente “y que él estaba contento y satisfecho. Podía ver con sus propios ojos la reanudación de las pesquisas del uso psicoterapéutico del LSD”.
posted by Paulo 12:01 PM
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Sexta-feira, Abril 25, 2008

 
Home, no cal que et posis tan empipat. Ha estat només una broma. Si et sembla que he sigut desrespectuós, doncs és perque no has estés la ironia. Aixi doncs, no es tracta de un concepte general, amb tots inclosos. Aixo és només la meva impressió, la de que pobles són distincts. Amb prou feines trobarás un estranyer que s'estime més aquest lloc.
posted by Paulo 3:23 PM
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Quarta-feira, Abril 23, 2008

 
Choque cultural
Vou desistir de brincar com os espanhóis. Eles levam tudo ao pé da letra, näo estäo treinados pra reconhecer a mais leve ironia. Algo que pra um brasileiro seria uma óbvia brincadeira, pra um espanhol pode ser uma afronta. E dá um puta trabalho explicar. A gente costuma usar esse tipo de jogo pra descontrair, pra relaxar o ambiente. Mas aqui, mesmo que você tenha uma certa intimidade com a outra pessoa: näo use a ironia pra socializar. TODOS väo pensar que você está falando sério. E todos väo te contradizer. Agora, por exemplo, a moça que faz o café-da-manhä comentou sobre a feira que está sendo montada aqui em frente. "Daqui a pouco ninguém mais vai achar o hotel", me disse. "É, mas mesmo assim um monte de gente continua chegando", respondi, brincando com o fato de o hotel estar cheio e a gente ter muito trabalho. Ou seja, querendo criar uma certa cumplicidade laboral. Ela pôs uma cara séria e devolveu: "mas isso é porque eles já sabem onde fica". Pô. Básico. Ontem estava conversando com um senhor sobre futebol, ele é torcedor do Real Madrid. Com o típico orgulho espanhol, se gabava de torcer pro clube que tem mais títulos em toda Europa. "Puxa, mas a maioria dos títulos do Real foram na década de 60. Faz tanto tempo", fiz aquele tipo de provocaçäo boba, mais do que comum quando a gente discute futebol. O sujeito ficou enfezado e começou a falar, a retrucar - enfim, levou a sério. Säo detalhes täo naturais, täo corriqueiros, que eu nunca imaginei que uma pessoa pudesse näo entender os sinais. Näo é que näo exista um humor espanhol, há alguns programas engraçados. Eles vêem mais graça no jogo malícia/ingenuidade do que na ironia. Mas fazer graça näo é a praia deles. Os cataläes, entäo, säo famosos mesmo entre eles por näo ter senso de humor.
posted by Paulo 12:48 AM
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Domingo, Abril 20, 2008

 


Across the Ingabelation
Eu me perguntava: por quê só me disponho a comentar alguma obra quando é pra criticar? É muito simples, comissário. Falar mal acaba sendo sempre mais divertido. Hoje eu explicarei por que "Across the Universe" é um filme täo ruim. Antes da metade eu já näo parava de pensar naquele Big Brother de cantores, acho que se chamava "FAMA". Nos EUA é "American Idol", na Espanha é "Operación Triunfo". Aquele programa em que todas as garotas cantam como Mariah Carey e todos os homens como o Daniel. Enfim, tenho certeza de que o elenco de "Across the Universe" saiu da versäo inglesa de "Operación Triunfo". Os atores säo afetados, com maneirismos de palco e atuaçöes exageradas. Pra um remake de "Fame" ("I want to live forever!") seria perfeito, embora "Fame" contasse com atores de verdade. Mas pra um filme situado dentro do Universo Beatle é um equívoco inexplicável. Quer dizer, a única explicaçäo possível é que os produtores tavam se lixando - contanto que as pessoas se iludissem o suficiente pra pagar o preço do ingresso. Um apanhado de situaçöes desconexas, sem um fio condutor mínimo, em que foram enfiando as músicas dos Beatles em versäo Broadway mal-feita. Salvam-se o Joe Cocker cantando "Come Togheter" e "She came in through the Bathroom Window" (pelo Joe Cocker, näo pela versäo) e a apoteose Gospel em que se tornou "Let it Be". Justamente uma das únicas músicas dos Beatles que me desagradam. O legal é que sempre pensei em "Let it Be" como um hino cantado naquelas igrejas negras americanas. E achei a versäo jóia - a seqüência é piegas, täo piegas quanto dizer "piegas". O resto é uma história de amor sem começo, sem motivo e com um fim descaradamente copiado de "Hair". E um enredo capenga. Se o diretor queria fazer algo psicodélico ele deveria ter tomado LSD, näo chá de fita. Enfim, felizmente já caiu no esquecimento dos mais sensatos e obviamente nunca se tornará uma obra cult. Alguém deve ter dito por aí que o filme é fraco, "só para os mais beatlemaníacos". Aí eu digo: o senhor está de sacanagem comigo.
posted by Paulo 4:50 AM
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Quarta-feira, Abril 16, 2008

 
Mr. turista americano típico e Obama
Conversei com um americano de 72 anos, turista que veio passar uns dias aqui. Sempre acorda muito cedo e sempre desce pra caminhar ou ler jornais. Ele estava folheando um jornal e tentando decifrar palavras em espanhol, que recitava sílaba por sílaba. "Mas é que esse jornal está em cataläo", lhe expliquei. "Owh!", sorriu simpático quando lhe passei a ediçäo em castelhano. Ele já sabe do petróleo que acharam no Brasil. Conversando de política, puxo o assunto pras eleiçöes nos EUA. McCain, claro, ele tem cara de McCain. Alto, branco, bem magro - bonezinho tipo baseball e sorriso largo. "Sou um fä do Obama", me surpreende. "É uma pessoa muito inteligente, eu gosto da carga multicultural que ele traz". Parece mentira, mas o conteúdo do que o cara disse é exatamente esse. Entäo Obama näo assusta os americanos maiores? "Mas Clinton näo gosta de perder", ponderou. "A briga dentro do partido Democrata está puxando os dois pra baixo. Espero que Obama vença, os democratas têm tudo pra vencer essas eleiçöes. Bush foi desastroso em muitas coisas".

-o-

Colômbia
Perguntei pra uma amiga, "te gusta Uribe?". Muitos imigrantes latinos costumam ser mais reticentes em falar de política. Mas ela me disse, sem muita convicçäo, que sim. Que o considera o melhor que houve nos últimos tempos (apesar dela ainda ter seus vinte e poucos anos). "Pelo menos", disse, "trouxe um pouco de segurança e estabilidade para o país". "Houve esse problema agora com o Chávez...", dizia quase que se desculpando.

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Nicarágua
A moça com quem cortei o cabelo da última vez é da Nicarágua. Está há três anos aqui. "Te gusta Ortega?" - minhas perguntas às vezes näo variam muito. Ortega, atual presidente, ex-dirigente da guerrilha Sandinista. Me disse que näo. Por quê? "Corruptos, enganam o povo na hora da eleiçäo e depois se aproveitam". Descobri que a Nicarágua compra energia elétrica dos EUA (pelo menos foi o que ela me disse), e que os atritos entre os dois governos tá afetando o abastecimento de luz. "A energia fica ligada só durante umas horas, de manhä. À noite tem racionamento, é à base de velas". Em Manágua? "Em todo o país". Me contou também histórias que a gente escuta em todas as partes. Disse que donativos e remédios que chegaram ao país depois da passagem do último furacäo acabavam sendo vendidos em farmácias e postos de saúde. Agora as próprias ONGs estariam se encarregando de distribuir a ajuda diretamente.
posted by Paulo 12:39 AM
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Quinta-feira, Março 20, 2008

 
É temporada de maduixes. Lindas maduixes suculentas e brilhantes, vermelhas e selecionadas. Todas durinhas como peitos de menina-moça. Nenhuma machucada. E baratas, uma caixa inteira por um euro e meio. Engraçado como essa fruta muda completamente de nome de uma língua pra outra. Fresa em espanhol, maduixa em cataläo, fragola em italiano, strawberry em inglês e morango. Donde será que saiu esse "morango"?
posted by Paulo 2:28 PM
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